O que são saídas não conformes e por que precisam de controle especial

Mesmo nas organizações com os melhores sistemas de gestão da qualidade, não conformidades ocorrem. Matérias-primas fora de especificação, erros de processo, falhas de equipamento, serviços que não atingiram o resultado esperado — nenhum sistema produtivo ou de serviços é completamente imune a desvios de qualidade.

O que diferencia uma organização madura é o que ela faz quando uma não conformidade ocorre. Uma organização sem controle adequado pode, inadvertidamente, continuar processando um produto não conforme, misturá-lo com produtos conformes, entregá-lo ao cliente ou usá-lo como insumo na etapa seguinte do processo. Cada um desses cenários tem consequências que vão desde desperdícios internos até reclamações graves ou, no pior caso, riscos à segurança do consumidor.

A cláusula 8.7 da ISO 9001:2015 estabelece os requisitos para o controle de saídas não conformes — garantindo que produtos e serviços que não atendem aos requisitos sejam identificados, isolados e tratados de forma adequada antes de qualquer possibilidade de uso ou entrega indevidos.

O que a cláusula 8.7 da ISO 9001:2015 exige

A cláusula 8.7 determina que a organização deve garantir que saídas que não estejam conformes aos seus requisitos sejam identificadas e controladas para prevenir seu uso ou entrega não intencional. Os requisitos se estendem ao longo de todo o ciclo — durante a produção, na inspeção final, após a entrega ao cliente e em produtos devolvidos.

Quatro disposições possíveis para saídas não conformes

A ISO 9001 prevê que a organização tome uma ou mais das seguintes ações quando identifica uma saída não conforme:

a) Correção

A saída não conforme é reparada ou reprocessada para que passe a atender aos requisitos. Após a correção, a saída deve ser reverificada para confirmar a conformidade. Exemplos: retifica de uma peça fora de tolerância, reprocessamento de um produto alimentício que não atingiu o tempo de pasteurização correto, revisão de um relatório que contém erros, reexecução de um serviço que não atendeu aos critérios de qualidade.

Importante: a reverificação após correção é um requisito explícito da norma. Uma não conformidade que foi corrigida mas não reverificada ainda representa um risco — a correção pode ter sido ineficaz ou ter introduzido uma nova não conformidade.

b) Segregação, contenção, devolução ou suspensão do fornecimento

Quando a saída não conforme não pode ser corrigida ou enquanto a disposição está sendo decidida, ela deve ser segregada para prevenir uso não intencional. A segregação física é a forma mais confiável de controle — estocar o produto não conforme em área separada e claramente identificada, impedindo que seja processado, embalado ou expedido.

Outras formas de contenção incluem a suspensão temporária do processo que está gerando a não conformidade, a devolução de materiais não conformes ao fornecedor e a suspensão da prestação de um serviço até que o desvio seja corrigido.

c) Informar ao cliente

Em alguns casos — especialmente quando a não conformidade é identificada após a entrega — a organização deve informar o cliente. Essa é uma das disposições que organizações mais relutam em tomar, mas que frequentemente é a mais importante para preservar a confiança do cliente e cumprir obrigações legais e contratuais.

A decisão de informar o cliente deve considerar: o impacto potencial da não conformidade no uso do produto ou serviço, os riscos à segurança ou saúde, os requisitos contratuais específicos (muitos contratos exigem notificação imediata de não conformidades) e os requisitos legais aplicáveis.

d) Obter autorização para aceitação sob concessão

Em determinadas situações, uma saída não conforme pode ser aceita sob concessão — ou seja, aceita no estado em que está, mesmo sem atender completamente aos requisitos. Isso pode ocorrer quando:

  • O desvio é menor e não impacta a função ou segurança do produto
  • A correção não é tecnicamente viável ou seria excessivamente custosa
  • O prazo de entrega é crítico e o atraso causado pela correção causaria mais prejuízo do que o desvio em si

A aceitação sob concessão deve ser autorizada pela parte relevante. Para desvios que afetam apenas requisitos internos da organização, a autoridade pode ser interna (gerente de qualidade, gerente de produção). Para desvios em requisitos especificados pelo cliente, a autorização do próprio cliente pode ser necessária.

A concessão deve ser documentada: o que é o desvio, qual é sua extensão, quem autorizou, em quais condições o produto pode ser utilizado. Concessões frequentes para o mesmo tipo de desvio são um sinal de que o processo precisa ser melhorado — a concessão não pode se tornar o caminho normal para produtos fora de especificação.

Identificação e segregação: as primeiras linhas de defesa

O controle de saídas não conformes começa com a identificação. Sem identificação clara, não é possível garantir que o produto não conforme não será processado ou entregue inadvertidamente. As formas mais comuns de identificação incluem:

  • Etiqueta ou cartão de identificação: Etiquetas vermelhas ou de cor diferenciada, marcadas com “PRODUTO NÃO CONFORME” ou “REPROVADO”, aplicadas fisicamente ao produto ou à sua embalagem. Para serviços, o registro no sistema.
  • Marcação direta no produto: Em alguns casos, a marcação é feita diretamente no produto com tinta, giz ou outro método que identifique visualmente o desvio.
  • Status no sistema de gestão: Em ambientes com ERP ou sistema de rastreamento, o status do produto pode ser alterado no sistema para “quarentena” ou “não conforme”, bloqueando automaticamente seu uso ou saída.
  • Localização física: O produto não conforme é movido para uma área fisicamente separada e designada — quarentena, área de segregação, câmara de não conformes — que é de acesso controlado ou claramente demarcada.

O processo de tratamento de não conformidade

Um processo eficaz de controle de saídas não conformes segue uma sequência lógica:

Passo 1: Detecção e comunicação imediata

A não conformidade é detectada — seja pelo operador, pelo inspetor, pelo controle de processo ou pelo cliente — e comunicada imediatamente ao responsável pela área e pela qualidade. Quanto mais cedo a não conformidade é detectada, menor o custo e menor o risco de que o produto não conforme avance no processo.

Passo 2: Contenção imediata

Antes de qualquer análise ou decisão, a prioridade é impedir que a situação piore. Isso pode significar parar a linha de produção, isolar o lote suspeito, suspender a expedição de produtos do mesmo lote ou avisar o processo seguinte para não utilizar os materiais recebidos até que a situação seja esclarecida.

Passo 3: Identificação e segregação do produto não conforme

Identificar fisicamente o produto não conforme e segregá-lo em área adequada, garantindo que não haja risco de mistura com produtos conformes.

Passo 4: Análise e decisão de disposição

A equipe relevante (qualidade, produção, engenharia, dependendo da natureza da não conformidade) analisa o desvio e decide qual das disposições previstas será adotada: correção, segregação/devolução, informar o cliente ou aceitar sob concessão.

Passo 5: Execução da disposição

A disposição é executada conforme decidido. Se for correção, o produto é reprocessado. Se for devolução ao fornecedor, o processo logístico é iniciado. Se for concessão, a autorização é obtida e registrada.

Passo 6: Reverificação (quando aplicável)

Após correção, o produto é reverificado conforme os critérios de aceitação estabelecidos. Somente após aprovação na reverificação o produto pode ser liberado para uso ou entrega.

Passo 7: Registro

Toda a ocorrência é registrada — o que foi o desvio, quando foi detectado, quem detectou, qual foi a disposição tomada, quem autorizou, qual foi o resultado da reverificação (se aplicável). Esses registros são exigidos pela cláusula 8.7 e são fundamentais para análise de tendências.

O registro de não conformidade: o que deve conter

A cláusula 8.7 exige que a organização retenha informação documentada que descreva a não conformidade, as ações tomadas, as concessões obtidas e identifique a autoridade que decidiu a ação. Na prática, isso significa manter um Registro de Não Conformidade (RNC) que inclua:

  • Identificação única do registro (número sequencial)
  • Data de identificação da não conformidade
  • Produto, serviço ou processo envolvido
  • Lote, número de série ou identificação específica do produto
  • Descrição detalhada da não conformidade (o que está errado, em que quantidade, qual o desvio em relação ao requisito)
  • Onde e como foi detectada
  • Causa aparente (quando identificada neste estágio)
  • Disposição adotada (correção, descarte, concessão, devolução)
  • Autorização da disposição (nome, cargo, data)
  • Resultado da reverificação após correção (quando aplicável)
  • Indicação se foi aberta uma Ação Corretiva para prevenir recorrência

Controle de não conformidades detectadas após a entrega

Uma das situações mais delicadas é a identificação de não conformidades após a entrega do produto ao cliente. A cláusula 8.7 abrange explicitamente esse cenário, exigindo que a organização tome ação apropriada para os efeitos ou efeitos potenciais da não conformidade.

As ações possíveis incluem:

  • Notificação do cliente: Informar o cliente sobre o problema, especialmente se há risco para a segurança do usuário ou se o produto pode causar danos ao processo do cliente.
  • Recolhimento de produto (recall): Para produtos com riscos à segurança ou que podem causar danos graves, o recolhimento do campo pode ser necessário. Organizações de setores regulados (alimentos, farmacêutico, automotivo, dispositivos médicos) devem ter procedimentos de recall formalizados e testados periodicamente.
  • Substituição: Envio de produto conforme para substituir o produto não conforme no campo.
  • Assistência técnica no campo: Quando o produto pode ser corrigido no local de uso, a organização pode enviar técnicos para realizar a correção.
  • Orientação ao cliente: Fornecer instruções ao cliente sobre como identificar o produto afetado e como proceder com segurança.

Não conformidades em serviços: particularidades

O controle de saídas não conformes em serviços apresenta desafios específicos porque o serviço é consumido no momento em que é produzido — ao contrário de um produto físico, não é possível segurar um serviço para inspeção antes de entregá-lo ao cliente.

Isso significa que o controle precisa ser mais proativo, com foco em prevenir a não conformidade em vez de detectá-la após o fato. No entanto, quando uma não conformidade de serviço ocorre (serviço entregue com erro, prazo não cumprido, qualidade abaixo do especificado), as ações típicas incluem:

  • Reexecução do serviço: Quando tecnicamente possível, refazer o serviço de forma correta
  • Compensação ao cliente: Desconto, crédito ou outro tipo de compensação pela não conformidade
  • Ação imediata de remediação: Para serviços que causaram dano ao cliente, ações imediatas para minimizar o impacto
  • Comunicação proativa: Informar o cliente imediatamente sobre o problema, antes que ele precise reclamar

Análise das não conformidades como entrada para melhoria

O controle de saídas não conformes não deve ser tratado apenas como um mecanismo reativo de containment. Os dados gerados pelos registros de não conformidade são uma fonte valiosa de informação para a melhoria contínua.

A análise periódica das não conformidades — idealmente mensal — deve buscar responder às perguntas:

  • Quais são os tipos de não conformidade mais frequentes? (análise de Pareto)
  • Quais processos ou etapas geram mais não conformidades?
  • Quais são as causas raiz mais comuns?
  • Existem tendências de aumento ou redução em alguma categoria?
  • As ações corretivas abertas estão sendo eficazes?
  • Existe alguma não conformidade recorrente que indica que a ação corretiva adotada não está resolvendo a causa raiz?

Esses dados devem ser apresentados nas reuniões de gestão e na análise crítica pela direção como entradas para o planejamento de melhorias. Uma não conformidade tratada apenas no momento em que ocorre, sem análise de causa raiz e sem ação para prevenir recorrência, vai inevitavelmente se repetir.

Não conformidade vs. ação corretiva: a distinção importante

É fundamental distinguir entre o controle da saída não conforme (cláusula 8.7) e a ação corretiva (cláusula 10.2). São dois processos complementares mas com propósitos diferentes:

  • Controle da saída não conforme (8.7): Trata o produto ou serviço específico que está fora de conformidade — o que fazer com aquele produto ou serviço agora. É uma ação imediata, de contenção.
  • Ação corretiva (10.2): Elimina a causa raiz da não conformidade para prevenir que ela se repita — o que fazer para que isso não aconteça de novo. É uma ação de médio prazo, sistêmica.

Uma organização pode ter um excelente processo de controle de não conformidades (todas identificadas, segregadas e dispostas corretamente) mas sem ações corretivas eficazes, o resultado é um sistema que gerencia muito bem os problemas que ocorrem mas que não evolui para preveni-los.

Indicadores para monitorar o controle de não conformidades

Medir o desempenho do processo de controle de não conformidades permite identificar tendências e avaliar a eficácia das ações tomadas. Indicadores úteis incluem:

  • Taxa de não conformidade interna: Percentual de produtos ou serviços que não atendem aos requisitos, detectados internamente antes da entrega ao cliente
  • Taxa de não conformidade no cliente: Percentual de entregas que resultam em reclamação ou devolução por não conformidade
  • Custo de não conformidade: Custo total de retrabalho, descarte, devolução, concessões e tratamento de reclamações — um indicador poderoso do impacto financeiro das não conformidades
  • Tempo médio de disposição: Tempo decorrido entre a identificação da não conformidade e a decisão formal de disposição — quanto maior, maior o tempo em que o produto fica bloqueado e o processo impactado
  • Percentual de não conformidades com ação corretiva aberta: Indica se as não conformidades significativas estão gerando iniciativas de prevenção ou se estão sendo apenas tratadas pontualmente
  • Taxa de reincidência: Percentual de não conformidades que se repetem após ação corretiva — um indicador direto da eficácia das ações para eliminar causas raiz

Erros comuns no controle de saídas não conformes

  • Identificação inadequada: Produtos não conformes sem etiqueta ou marcação clara, que podem ser misturados com produtos conformes ou usados inadvertidamente.
  • Área de segregação inadequada: Produto não conforme estocado na mesma área do produto conforme, com risco de mistura.
  • Falta de reverificação após correção: Produto reprocessado liberado para uso sem verificação de que a correção foi eficaz.
  • Concessões não documentadas: Produtos aceitos com desvio sem registro formal da concessão e da autorização.
  • Não comunicação ao cliente quando necessário: Não conformidades pós-entrega tratadas internamente sem notificação ao cliente, especialmente quando há impacto na segurança ou na funcionalidade.
  • Registros incompletos: RNCs sem a descrição completa do desvio, sem a disposição tomada ou sem identificação de quem autorizou.
  • Não abertura de ação corretiva: Não conformidades tratadas pontualmente, sem investigação de causa raiz e sem ações para prevenir recorrência.

Conclusão

O controle de saídas não conformes é um dos processos mais visíveis do SGQ no cotidiano da organização. Bem implementado, ele garante que problemas de qualidade sejam contidos rapidamente, que produtos e serviços não conformes não cheguem ao cliente e que as informações geradas alimentem o ciclo de melhoria contínua.

A cláusula 8.7 da ISO 9001:2015 não exige perfeição — exige que, quando a imperfeição ocorre, ela seja controlada de forma sistemática. Organizações que dominam esse processo desenvolvem uma cultura de qualidade baseada na transparência, na responsabilidade e na aprendizagem contínua com os erros — o que, paradoxalmente, é o que leva à redução progressiva dos próprios erros ao longo do tempo.

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